Versículo do Momento

LEIA A BÍBLIA

quarta-feira, dezembro 24, 2014

AS CARETAS DO FELIPÃO



No penúltimo jogo da Seleção Brasileira de Futebol, contra a equipe do Chile, pudemos notar o técnico Luiz Felipe Scolari demonstrando certa irritação com os atletas. Quando transmitia alguma orientação aos jogadores, retornava balançando a cabeça como que desabafando: “assim não dá!”.

No entanto, os atletas não esboçavam melhoras. Bem ao contrário, e equipe se mostrava cada vez mais apática e perdida. Felizmente a cena não se repetiu na partida contra a Colômbia.

Deixando de lado uma análise técnica da partida, que não nos sentimos habilitados a fazê-lo, penso que podemos analisar as atitudes do líder e como ela influi em sua equipe. Muitos pais, diante de um defeito ou de uma atitude inadequada que se repete nos filhos também costumam se perder em lamentações do tipo “eu já falei mil vezes e você não me ouve!”, ou, pior ainda “eu desisto de você!”.

Diante de atitudes desse tipo convém indagar qual é a real intenção do líder. Será que ele espera de verdade que com essas reclamações os filhos se decidam motivadamente a mudar o comportamento? Ou, ao contrário, é uma simples atitude de desabafo de quem não está decidido a lutar com valentia para que os filhos melhorem?

A intencionalidade que está por detrás de toda ação educativa é fundamental. Isso se aplica muito especialmente aos pais e professores, mas também convém ser meditada por todos que exercem de algum modo autoridade. Assim, quando se busca o bem dos filhos, alunos e subordinados, assim como daqueles com quem eles convivem ou necessitam dos seus serviços, a ação do líder deve ser no sentido de motivar. Trata-se de expor o que se espera deles de uma maneira proativa, ao mesmo tempo em que se demonstra total confiança de que eles saberão corresponder.

Isso não significa que sempre se assumirá uma atitude de “passar a mão na cabeça”. Por vezes será necessário corrigir, inclusive com rigor, expondo claramente o comportamento inadequado e, principalmente, os motivos pelos quais devem emendar e mudar o comportamento. Mas sempre com aquele pano de fundo bem definido, qual seja, o desejo sincero e determinado que melhorem.

Não é fácil, porém, manter essa atitude permanente de motivar e demonstrar confiança. É frequente desanimarmos e nos perdermos em lamentações. Convém não ignorarmos, porém, que a mansidão está muito relacionada com a fortaleza, ao passo em que a grosseria e a irritação estão muitos relacionadas com a fraqueza. O forte, precisamente porque soube se dominar é manso, sabe mandar, sabe exigir, com energia, por vezes, mas sempre com respeito, comedimento e ponderação.

Em educação, como em quase tudo, ninguém dá o que não tem. Por isso, o líder deve ser sereno, confiante, que acredita na vida e que a felicidade é possível nesta vida. E por isso transmitem essa convicção. Sua mensagem deve sempre estar impregnada de confiança, por mais que as atitudes anteriores daquele que lidera pareçam não merecê-la.

As pessoas sempre podem mudar. Por isso, pais e professores não têm o direito de jamais desistirem dos seus filhos e alunos. Enquanto tiverem a missão de formá-los  e a dos pais não termina nunca – deverão alimentar a esperança de que vão melhorar, de que mesmo que seja nos derradeiros momentos da sua passagem por esta vida decidirão a trilhar os caminhos a que foram desde sempre convidados.

“Os homens como o vinho, melhoram com o tempo” dizia um grande homem. De fato, temos de confiar que nossos filhos, alunos e todos os que dependem de nós estão destinados a ser cada vez melhores. É certo que o vinho, para que fique cada vez mais refinado, precisa ficar muito bem acondicionado, além de já ser de boa qualidade. De certo modo – ainda que toda analogia seja imperfeita, todo ser humano é de excelente qualidade e espera que lhe demonstremos confiança, que lhes mostremos mais com o nosso exemplo do que com palavras que a vida vale a pena, que lhes aguarda uma imensa felicidade quando se decidirem de verdade a serem bons, por amor.



 
Diácono Rilvan Stutz
Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro
Fábio Henrique Prado de Toledo – Juiz de Direito 

sexta-feira, dezembro 19, 2014

O CLAMOR DO POVO



O povo estava cansado e foi às ruas para clamar contra o governo vigente, enviando representantes seus ao dirigente máximo para que providenciasse a reforma política do país, o qual há muito vinha sendo dirigido por um governo centralizado numa pessoa, que fazia o que bem queria, designando seu representante diante do povo. Este clamava por novos rumos para o país e por um governo que atendesse aos seus clamores, para que a nação tivesse o respeito de outros povos mais adiantados.

 Esse fato não aconteceu no Brasil, nem no Egito, nem nos nossos dias, como alguns possam pensar, mas há cerca de 3 mil anos, no meio do povo de Israel. E o governo que queriam derrubar era o teocrático, isto é, o governo de Deus. Desde que tirara o povo do Egito, Deus o vinha dirigindo, por cerca de 400 anos, através de juízes que ele mesmo escolhia. O povo agora não queria mais esse regime, mas um rei, como ocorria com outras nações. E isso foi dito a Samuel, juiz à época.

Se fosse nos dias de hoje, iriam às ruas para clamar “Abaixo a teocracia. Queremos a monarquia!”. Numa linguagem atual, diríamos que o povo estaria pedindo a renúncia de Deus. E Deus, mesmo sabendo que o povo fazia escolha desfavorável, resolveu renunciar, mandando que Samuel atendesse às pretensões do povo, como lemos e 1Samuel 8.7: “Disse o Senhor a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitaram a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre eles”. E DEUS RENUNCIOU. E por que Deus renunciou? O Senhor mesmo revela o motivo: “Segundo todas as obras que fez desde o dia em que o tirei do Egito até hoje, pois a mim me deixou e a outros deuses serviu, assim também o faz a ti” – v. 8. Deus renunciou porque o povo já tinha renunciado a ele.

Além disso, a corrupção dominava a liderança, como ocorre também nos dias de hoje: “Tendo Samuel envelhecido constituiu seus filhos por juízes sobre Israel. Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos, e perverteram o direito” – vers1e3.

E isso tudo ocorreu no seio do povo de Deus. Eles estavam cansados de ser dirigidos por Deus e de estar sob sua soberania. Queriam outra experiência e outro rei. E Deus o permitiu para que o povo aprendesse a lição de que era melhor servir a Deus do que aos homens. A maioria dos reis de Israel realizou mau ou péssimo governo. E o povo sofreu muito nas mãos desses reis, que lhe impuseram pesados impostos e os obrigaram a atos abomináveis, chegando Israel a praticar a idolatria, a imoralidade, a corrupção e até barbaridades, como a entrega dos filhos para serem queimados em holocausto ao deus Moleque. E o povo se desviou tanto de Deus que terminou no cativeiro da Babilônia. Só então é que se lembrou de Deuseclamouaele.

Estamos observando, notadamente no Brasil, certa tendência de grupos evangélicos que estão se rebelando contra a soberania de Deus, para seguir outros reis, tenham os títulos que tiverem, a fim de buscar experiências contrárias ao verdadeiro culto a Deus, às suas leis e às sua Palavra, voltados mais para o que lhes interessa do que para os interesses de Deus. E usam o nome de Jesus, não como Salvador de suas almas, mas como salvador de suas finanças e de seus problemas imediatos. O resultado é que o povo, iludido por essas promessas, se afasta cada vez mais da verdadeira doutrina, do verdadeiro Deus e do verdadeiro Salvador. Melhor é estar sob o domínio, o governo e a proteção de Deus, do que estar subserviente aos reis deste mundo, que nos podem levar ao cativeiro do pecado por toda
A Eternidade

E a nossa igreja, que rumo está tomando? Será que, como o povo de Israel, está cansada do Deus soberano, clamando contra o seu domínio, no desejo de experiências novas, por influência dos reis deste mundo, pedindo, por seu comportamento, a renúncia de Deus? O risco que corremos é de que Deus nos possa atender, como fez com Israel. E então o que será de nós?


 
Diácono Rilvan Stutz
Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro
Thiago Rodrigues Rocha – Teologia Brasileira

terça-feira, dezembro 16, 2014

EUTANÁSIA E CONSENTIMENTO



O direito é moldado, com efeito, para garantir um mínimo de responsabilidade ética para a sua realização, assegurando a harmonia social. Essa responsabilidade deve evitar, por exemplo, que o direito de aceitar o consentimento do paciente, como se fosse apenas uma variável a mais sujeita a uma avaliação moral, fosse determinante para direcionar todas as demandas aí envolvidas.

A compaixão moral permissiva tem de dar lugar a uma garantia jurídica responsável. Obviamente se o suposto direito de exigir a morte fosse apenas uma solução última e desesperada, frustradas as possibilidades médicas de solução, o debate sobre as garantias essenciais tornar-se-ia central para o argumento aqui exposto.

Pode-se objetar que descriminalizar a conduta de terceiros não implicaria em legalizar no sentido próprio do termo. Tal distinção dogmático-jurídica não parece não ter muito significado prático, como a referência à objeção de consciência tem nos casos de aborto. Não se admira que este fator esteja presente nas recentes tentativas de abordagem, independentemente de qualquer apelo à transcendência, do futuro da natureza humana.

Isso se dá, por exemplo, na visão de Habermas, para quem, a sujeição da tutela daquilo que denomina pré-vida pessoal, a fins terapêuticos produziria uma perda de sensibilidade da nossa visão de natureza humana, a ponto de que um incentivo de tal prática abriria os caminhos para a eugenia liberal.

O paralelismo entre o direito e a saúde, presente já na antiguidade grega, vai mais além de sua condição de saberes práticos. Inseparável do direito é a exigência de simetria, derivada da radical exigência de tratar o outro como um ser igual. Não muito distinto é o ponto de vista moral do trato não instrumentalizado de uma segunda pessoa, perceptível na lógica da cura.

Na mentalidade eugenésica, existe uma ruptura da aludida simetria, quando os pais decidem de acordo com suas próprias (e, não raro, inconfessadas) preferências, como se o doente fosse uma coisa. A liberdade é concebida como algo natural indisponível, na qual a pessoa cria um liame com sua própria origem, de modo que, a partir de um dado momento, não dependa mais de outra.

Se o foco recai sobre a autodeterminação do enfermo, a questão da simetria seria desnecessária, ao se apresentar a eutanásia como um ato de renúncia pessoal. Surgiria um dilema entre a liberdade pessoal do doente e a imposição heterônomo de critérios despersonalizados. Novamente, o juízo moral se mostrará mais propício a assumir um enfoque de uma atitude juridicamente responsável.

O direito se vê na obrigação de resgatar a visibilidade do outro em um plano bidimensional. Como a liberdade se insere num âmbito essencial de solidariedade, na verdade, assistimos a um choque de duas liberdades. A liberdade do profissional médico, com a salvaguarda do exercício do direito de objeção de consciência. Mas ele não é o único protagonista na realidade posta.

O paciente também participa e o direito não pode reduzir a resolução do problema ético apenas garantindo a segurança do consentimento do enfermo que solicita a eutanásia, como se tudo se resumisse a tal ato. Se se amplia o espectro de visibilidade, emerge a responsabilidade jurídica de garantir a vontade de outros doentes que, em condições similares do exercício de sua liberdade, não a solicitaram.

No choque entre o exercício de um presumido direito alheio de morrer com um induvidoso direito à vida do paciente, reforça-se a importância de se assegurar juridicamente os meios para o exercício de uma lógica da cura, muito mais compatível com a citada simetria do que a almejada capacidade de dispor sobre a vida de outrem.

Não há dúvida de que uma atitude de abertura à transcendência tem privilegiado os argumentos para manter o primado da dignidade como fundamento da autonomia da vontade do paciente. Mas isso só serve para destacar o quanto o problema atual da eutanásia reside no fracasso das tentativas de estabelecê-lo para além deste ponto de apoio.





Diácono Rilvan Stutz
Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro
André Gonçalves Fernandes
Juiz de direito titular de entrância final

domingo, dezembro 14, 2014

O NOVO GENOCÍDIO




É um fato, independentemente do valor que isso acarreta, que a sociedade em que vivemos hoje é baseada em nada mais além da competição e da meritocracia. Aqueles que forem melhores que os demais, que obtiverem mais méritos pouco importando seu patamar de início, serão aqueles que possuirão as vagas nas melhores universidades, os melhores salários, o status social mais elevado.

Percebe-se nisso uma espécie de paranoia, principalmente dos pais para com os filhos, na preparação para os desafios que a vida propõe. Um exemplo está no filme Doze é Demais 2, de Adan Shankman, quando ocorre uma bizarra e intrigante competição esportiva para que seja determinada a melhor família. O pai de uma delas, ambicioso e obcecado pela vitória, impõe um treino pesado e desgastante a seus filhos, que posteriormente se rebelam devido ao fato de não terem escolhido livremente ao ritmo de treinamento. O pior é que essa privação de liberdade e autonomia pode tomar aspectos ainda mais drásticos, chegando a algo que em muito se aproxima da eugenia nazista.

A imposição em sua forma mais autoritária é o aborto eugênico, hoje chamado de aborto terapêutico, aquele que interrompe a gravidez em caso de malformação do feto ou em casos que o bebê não atinge o padrão esperado pelos pais.  O primeiro caso de maior aceitação e infelizmente legalizado no Brasil pode não parecer, mas é mais grave.

Abortar um bebê anencéfalo é o mesmo que comparar um ser humano a um objeto. A tal criança, argumentam os abortistas, nascerá com baixa expectativa de vida e numa condição que não lhe será útil a vida, e sendo assim, de nada vale aguentar sua existência, tirando-lhe logo a vida.

É uma monstruosa concepção utilitarista da vida; esta seria apenas uma dicotomia dor/prazer, e quando a primeira é maior, de nada vale a existência. Ou ainda pior, seria entre o status de útil ou inútil que se definiria o valor de uma vida. E resultado seria uma aniquilação dos seres ditos inúteis, independentemente se estiverem ou não no útero de alguém.

Se a filosofia do aborto eugênico é ruim, pior é a sua ética. Ao invés de se promover a pesquisa e o amparo para prevenir as más formações em suas causas, e de sustentar as famílias com meios adequados onde acontecer o nascimento de tais indivíduos, que trazem encargos econômicos e humanos difíceis, mas superáveis com nada mais que amor, prefere-se dar-lhes o desprazer e a agonia da morte. Uma sociedade que se qualifica por sua arrogância em provocar um fim precoce aos fracos e não por sua capacidade de ajudá-los é, com certeza, uma sociedade doente.

Sobre o segundo caso temos como exemplo principal o que acontece na Índia. No anseio de não haver incômodos com a prole, o pais Indianos descartam, de forma drástica, os bebês do sexo feminino. Devido à cultura de tal país, a mulher é muito mal vista socialmente, então ninguém quer possuir filhas mulheres, apelando para o aborto no caso em questão.

E esse problema é tão grande que na Índia há uma disparidade enorme entre os sexos, algo que forçou o governo indiano a proibir os exames pré-natais que indicam o sexo do bebê para tentar conter a eugenia parental.

Alguns, incrivelmente, ainda argumentarão a favor da eugenia através de escolhas de genes e fertilização in vitro (como o ilustre Adolf Hitler e o jusfilósofo contemporâneo Robert Dworking), dizendo que ela, quando de forma livre e não imposta pelo Estado, molda a sociedade de forma positiva. Dworking mesmo diz: "se brincar de Deus significa lutar para melhorar nossa espécie, (...) e melhorar o que Deus ou a natureza fizeram ao longo de milênios, então o primeiro princípio do individualismo ético comanda essa luta".

O problema da eugenia liberal é que a liberdade é para apenas uma das partes. A criança que nascerá mais apta aos estudos do que aos esportes, graças às escolhas dos pais, será não apenas impossibilitada de escolher como terá uma dívida para com seus pais, que lhe colocaram no mundo como um objeto que tem uma única finalidade: ganhar o prêmio Nobel.

O remédio para tudo isso, como já foi dito, não vai além do amor. Os pais só encontrarão a felicidade e respeitarão a dignidade da pessoa humana ao terem os filhos como fim último do amor conjugal, não como meio para se exibir aos vizinhos ou vencerem competições. Todo este hiperempenho pela perfeição representa um excesso ansioso de maestria e dominação que deixa de lado o sentido de dádiva da vida. 






Diácono Rilvan Stutz
Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro
Com Pedro Toledo